A Bioética nossa de cada dia

A Bioética nossa de cada dia

 

Muitos de nós não sabemos, mas sempre estamos fazendo escolhas, e as fazemos baseados em princípios internos que norteiam a nossa vida. Existe um arcabouço interno que usamos para moldar as nossas decisões. Essas decisões são dos mais variados tipos. Por exemplo, quando você escolhe a camisa com a qual vai trabalhar, vários fatores influenciam: cor, combinação com outras roupas, local de trabalho, etc. Ainda que a gente não racionalize na frente do armário, agimos de acordo com uma “lógica interna”.

Claro que escolher a camisa de manhã não tem o mesmo peso que escolher o cônjuge. São escolhas bem diferentes, mas que seguem os mesmos princípios. Por que você decide por uma pessoa e não outra? Ora, por causa do sentimento que você tem por ela, pelas afinidades entre vocês dois, pela perspectiva de futuro que vocês terão. Todos esses fatores estão presentes, mas nem sempre nós os racionalizamos. É bem importante a reflexão sobre esses temas para eventuais correções de rota, mudança de atitude e postura.

Quando pensamos na Bioética, pensamos em assuntos que dizem respeito à nossa sobrevivência mais primitiva, aos instintos mais primevos da existência humana. Veja, por exemplo, a maneira como lidamos com a comida. Todos nós sabemos que precisamos comer para nos mantermos vivos. Mas aí ocorrem alguns movimentos interessantes em nosso cérebro. Primeiro é a recompensa de trabalhar por muitas horas diárias, vários dias na semana, de se esforçar para atingir metas, superar barreiras, cumprir contratos. Quando atingimos esses objetivos, o restaurante vira um pódio e o prato cheio, a medalha de ouro.

A segunda maneira de encarar a comida é a compensação. Quando as metas não são atingidas, quando o fornecedor não entrega no prazo certo, ou quando o cliente não faz a compra que estávamos esperando e precisando para fechar a cota do mês, o restaurante passa a ser o lugar de afogar as mágoas. O pensamento é “já que tudo deu errado, pelo menos uma coisa vai dar certo”. E então, a necessidade de comer passa a ser unicamente uma fonte de prazer.

Mas onde a Bioética entra nessa história? Quando pensamos na ética da vida, pensamos em todos os aspectos que norteiam a manutenção da vida. Desde o médico que precisa falar para seu paciente e seus familiares que há um câncer terminal presente, até a maneira como lidamos com a manutenção da nossa própria vida. Percebe que a finalidade é a mesma, mas a maneira como essas situações são colocadas podem ser diferentes? Nessas duas situações ambos vão lutar pela sobrevivência.

O médico deve agir com toda ética e não ocultar nada de seu paciente e familiares, a fim de que eles todos decidam qual é o melhor tratamento. Trata-se de uma decisão colegiada que, ainda que o paciente tome a decisão final, há influências de todos os lados para essa tomada – lembra das influências para a escolha da camisa? Médico, paciente, familiares e amigos participam das escolhas que vão impactar a vida de todos os envolvidos. E quanto mais disponibilidade de informação, mais ponderada será a decisão.

Na hora do almoço é preciso pensar que esse momento não passa de uma situação de manutenção da vida. A nossa alimentação não precisa funcionar como uma sala de cinema ou um show da banda que você mais gosta de ouvir. É claro que a comida pode – e deve – ser fonte de prazer. Mas nenhum prazer é ilimitado. Falta de limites é falta de ética. A ética delimita ações, serve de marco de referência até onde podemos ir e como podemos ir. É falta de ética pessoal comer mais do que se necessita, é autossabotagem. É enganar-se a si mesmo.

Portanto, quando pensamos na ética da vida, pensamos em nós, seres humanos, seres vivos. Precisamos sobreviver, precisamos comer para nos mantermos vivos. Precisamos pensar em como nos manteremos vivos. Além da alimentação diária, também precisamos respirar para viver. E como tem sido a nossa respiração?

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